Quando o assunto é melhorar a circulação sanguínea, é comum surgirem recomendações envolvendo chás, ervas, suplementos, frutas, temperos e outros produtos naturais. Mas será que existem realmente alimentos que melhoram a circulação? E os fitoterápicos podem ajudar quem sofre com má circulação, varizes, pernas inchadas ou insuficiência venosa?

A resposta exige alguns cuidados.

A alimentação exerce um papel importante na saúde do coração, das artérias e dos vasos sanguíneos. Entretanto, nenhum alimento ou fitoterápico isoladamente deve ser encarado como tratamento milagroso capaz de “limpar as artérias”, eliminar varizes ou substituir medicamentos e tratamentos prescritos pelo médico.

A própria Organização Mundial da Saúde destaca a alimentação inadequada, o sedentarismo e o tabagismo entre importantes fatores de risco modificáveis relacionados às doenças cardiovasculares.

Por isso, quando falamos em alimentação para melhorar a circulação, o mais importante não é procurar um único alimento milagroso, mas adotar um padrão alimentar saudável associado a hábitos que protejam todo o sistema cardiovascular.

O que é saúde vascular?

O sistema vascular é formado por uma extensa rede de artérias, veias e vasos menores responsáveis pela circulação do sangue pelo organismo.

As artérias levam o sangue para os diferentes tecidos. As veias realizam o caminho de retorno do sangue ao coração. Alterações nesses vasos podem provocar doenças bastante diferentes entre si.

Entre os problemas vasculares mais conhecidos estão:

  • varizes;
  • insuficiência venosa crônica;
  • trombose venosa profunda;
  • doença arterial periférica;
  • aterosclerose;
  • aneurismas;
  • edema e alterações circulatórias dos membros inferiores.

Por esse motivo, dizer apenas que uma pessoa apresenta “má circulação” pode ser impreciso. Dor nas pernas, inchaço, sensação de peso, mudança na coloração da pele, feridas ou dor ao caminhar podem ter causas diferentes e precisam ser corretamente investigados.

A alimentação realmente pode melhorar a circulação sanguínea?

Uma alimentação equilibrada contribui principalmente para o controle dos fatores de risco cardiovascular.

Isso inclui pressão arterial, colesterol, glicemia, excesso de peso e outros fatores relacionados à saúde dos vasos sanguíneos.

A OMS recomenda que a base de uma alimentação saudável seja composta principalmente por alimentos minimamente processados ou não processados, incluindo frutas, verduras, legumes, leguminosas e cereais integrais. Para pessoas acima de 10 anos, a recomendação é de pelo menos 400 gramas de frutas e vegetais diariamente e, para adultos, pelo menos 25 gramas de fibras alimentares por dia.

Mas quais alimentos merecem destaque?

1. Frutas vermelhas e frutas roxas

Morango, amora, mirtilo, framboesa, uva roxa e outras frutas de coloração intensa possuem diferentes compostos bioativos, incluindo flavonoides e outros antioxidantes.

Isso não significa que essas frutas sejam um “remédio para circulação”. Elas podem, entretanto, fazer parte de um padrão alimentar rico em vegetais.

Frutas e verduras fornecem vitaminas, minerais, fibras, esteróis vegetais, flavonoides e outros compostos importantes. Uma alimentação rica nesses alimentos está associada à redução do risco de algumas doenças cardiovasculares.

Portanto, mais importante do que escolher uma fruta específica é variar as cores e os tipos de vegetais consumidos ao longo da semana.

2. Azeite de oliva e gorduras insaturadas

A qualidade da gordura presente na alimentação também merece atenção.

A recomendação atual é favorecer fontes de gorduras insaturadas, presentes em alimentos como azeite de oliva, peixes, abacate e oleaginosas, em substituição a quantidades excessivas de gorduras saturadas e gorduras trans.

O azeite pode ser utilizado, por exemplo, no tempero de saladas, legumes e outras preparações.

O ponto principal, novamente, não está em consumir grandes quantidades de um determinado produto, mas em melhorar o padrão alimentar como um todo.

3. Castanhas, nozes e outras oleaginosas

Castanhas, amêndoas e nozes podem integrar uma alimentação voltada para a saúde cardiovascular.

Além de gorduras insaturadas, esses alimentos fornecem fibras e diferentes micronutrientes.

Uma maneira simples de incorporá-los à alimentação é substituir alguns lanches ultraprocessados por pequenas porções de oleaginosas sem excesso de sal.

Isso é particularmente interessante porque a redução do consumo de sódio também faz parte da prevenção cardiovascular.

4. Peixes

Os peixes podem ser boas fontes de proteínas e, dependendo da espécie, de gorduras poli-insaturadas.

Sardinha, salmão e outros peixes gordurosos são conhecidos pela presença de ômega-3.

Na prática, a inclusão de peixes pode fazer parte de um padrão alimentar variado, especialmente quando substitui carnes processadas e outros alimentos com excesso de gordura saturada ou sódio.

5. Folhas verdes e outros vegetais

Couve, espinafre, rúcula, agrião, brócolis e diversos outros vegetais devem aparecer com frequência no prato.

Não existe necessidade de procurar exclusivamente o “melhor vegetal para circulação”. A diversidade costuma ser uma estratégia mais interessante.

A OMS recomenda justamente uma alimentação variada e rica em frutas, verduras, legumes, cereais integrais, leguminosas e outras fontes nutricionalmente adequadas.

6. Feijão, lentilha, grão-de-bico e outras leguminosas

O tradicional feijão merece espaço quando falamos em alimentação saudável.

Feijão, lentilha, ervilha e grão-de-bico são fontes de fibras alimentares e proteínas vegetais e podem contribuir para um padrão alimentar cardioprotetor.

A recomendação de aumentar alimentos vegetais integrais não significa necessariamente recorrer a produtos caros ou exóticos. Muitos alimentos tradicionais da alimentação brasileira se encaixam perfeitamente nessa estratégia.

7. Aveia e cereais integrais

Aveia, arroz integral e outros cereais integrais são importantes fontes de fibras.

A presença adequada de fibras na dieta faz parte das recomendações atuais para uma alimentação saudável.

Em vez de procurar um suplemento imediatamente, vale observar primeiro a qualidade geral da alimentação e a quantidade de frutas, vegetais, leguminosas e cereais integrais consumidos diariamente.

8. Alho: faz bem para a circulação?

O alho talvez seja um dos alimentos mais associados popularmente à circulação sanguínea e saúde cardiovascular.

Há alguma base científica para esse interesse, mas é preciso interpretar os resultados corretamente.

Segundo o National Center for Complementary and Integrative Health (NCCIH), suplementos de alho podem produzir pequenas reduções no colesterol total e LDL em pessoas com colesterol elevado. Há também evidências limitadas de pequenas reduções da pressão arterial em pessoas hipertensas.

Isso está muito longe, entretanto, de significar que o alho “desentope artérias” ou substitui medicamentos para colesterol ou hipertensão.

Outro ponto importante é distinguir o alho utilizado normalmente na culinária de extratos e suplementos concentrados de alho.

Suplementos de alho podem aumentar o risco de sangramento, principalmente em pessoas que utilizam anticoagulantes, aspirina ou determinados outros medicamentos.

9. Cúrcuma e curcumina

A cúrcuma, também conhecida como açafrão-da-terra, ganhou enorme popularidade nos últimos anos.

Seu principal componente estudado é a curcumina.

Embora existam muitas alegações sobre seus possíveis efeitos anti-inflamatórios e cardiovasculares, atualmente não há evidências suficientes para concluir definitivamente que cúrcuma ou curcumina tragam benefícios para as diversas condições de saúde para as quais são promovidas.

Além disso, suplementos não devem ser tratados como equivalentes ao uso culinário da cúrcuma.

O NCCIH relata casos de lesão hepática associados a determinadas formulações de curcumina desenvolvidas para aumentar sua absorção.

Portanto, utilizar cúrcuma como tempero é uma situação diferente de ingerir cápsulas concentradas diariamente.

E os fitoterápicos para circulação?

Esse assunto exige ainda mais atenção.

Fitoterápico não significa produto isento de efeitos colaterais.

Plantas possuem substâncias biologicamente ativas. Dependendo da planta, concentração, dose, condição clínica e medicamentos utilizados pelo paciente, podem ocorrer efeitos adversos e interações medicamentosas.

Alguns dos produtos mais procurados merecem uma explicação específica.

Castanha-da-índia e insuficiência venosa

A castanha-da-índia (Aesculus hippocastanum) é frequentemente encontrada em produtos direcionados à circulação e aos sintomas da insuficiência venosa crônica.

Entre os fitoterápicos populares para circulação, é um dos que possuem evidências clínicas mais específicas.

Uma revisão de estudos encontrou indícios de que o extrato de sementes de castanha-da-índia pode melhorar sintomas da insuficiência venosa crônica, como desconforto e inchaço. Entretanto, ainda são necessários estudos maiores e mais rigorosos para definir melhor sua eficácia.

Existe ainda uma questão de segurança muito importante: partes cruas da planta, incluindo sementes, cascas, flores e folhas, contêm um componente tóxico e não devem ser ingeridas como se fossem um alimento ou chá caseiro. Extratos padronizados utilizados em pesquisas são preparados de maneira diferente.

Por isso, automedicação não é recomendada.

Ginkgo biloba melhora a circulação?

O Ginkgo biloba aparece com frequência em produtos anunciados para “melhorar a circulação”.

Porém, a reputação comercial do produto não deve ser confundida com comprovação científica.

O NCCIH informa que atualmente não existe evidência conclusiva de benefício do ginkgo para qualquer condição de saúde estudada e que ele não demonstrou benefício para prevenção de doenças cardíacas ou tratamento da hipertensão.

Há ainda uma preocupação importante: o ginkgo pode aumentar o risco de sangramento em pessoas que utilizam anticoagulantes como a varfarina e também pode interagir com outros medicamentos.

Portanto, Ginkgo biloba não deve ser utilizado indiscriminadamente como um “remédio natural para circulação”.

Gengibre faz bem para circulação?

O gengibre é um alimento e tempero interessante para compor uma dieta variada e pode ser utilizado em diferentes preparações.

Entretanto, é importante não transformar resultados laboratoriais ou estudos preliminares em promessas clínicas.

Não é adequado afirmar que simplesmente tomar chá de gengibre seja capaz de tratar varizes, prevenir trombose ou desobstruir artérias.

Esse raciocínio vale também para diversos chás comercializados como “chá para circulação”.

Chá para circulação funciona?

Essa é uma dúvida muito frequente.

Antes de perguntar qual é o melhor chá para circulação, é necessário descobrir por que a pessoa acredita estar com a circulação ruim.

Pernas inchadas podem ocorrer por insuficiência venosa, mas também por problemas cardíacos, renais, hepáticos, efeitos de medicamentos e diversas outras situações.

Dor nas pernas ao caminhar pode estar relacionada à doença arterial periférica.

Já dor, inchaço e alterações repentinas em uma perna podem exigir investigação de trombose.

Portanto, tentar tratar todos esses sintomas com um chá pode atrasar um diagnóstico importante.

O que evitar para proteger as artérias e os vasos sanguíneos?

Tão importante quanto escolher bons alimentos é reduzir hábitos que prejudicam a saúde cardiovascular.

A OMS recomenda limitar o consumo de alimentos ultraprocessados ricos em sódio, açúcares livres e gorduras não saudáveis. Também recomenda priorizar gorduras insaturadas em relação às saturadas e evitar as gorduras trans industriais.

A atenção ao sal merece destaque.

O excesso de sódio contribui para o aumento da pressão arterial, que por sua vez eleva o risco cardiovascular. Para adultos, a OMS recomenda limitar o consumo de sal a menos de 5 gramas por dia, equivalente a menos de 2 gramas de sódio.

Grande parte desse sódio pode estar escondida em alimentos industrializados.

Alimentação ajuda a prevenir varizes?

Uma alimentação saudável pode contribuir indiretamente para a saúde vascular, inclusive auxiliando na manutenção do peso corporal adequado e no controle de fatores de risco cardiovascular.

Entretanto, varizes não aparecem simplesmente porque alguém comeu determinado alimento, nem desaparecem ao consumir sucos, chás ou suplementos.

Varizes estão relacionadas a alterações no sistema venoso e podem sofrer influência de fatores como predisposição familiar, idade, gestação, obesidade e determinadas características ocupacionais e comportamentais.

Quando já existem varizes ou insuficiência venosa, o tratamento deve ser individualizado.

Dependendo do caso, podem ser indicadas mudanças de hábitos, medidas compressivas e diferentes procedimentos médicos.

Existe alimento capaz de “desentupir as artérias”?

Não.

Expressões como “alimento que limpa as artérias”, “chá que desentope veias” ou “suco que dissolve placas de gordura” são atraentes, mas simplificam de maneira perigosa doenças complexas.

A aterosclerose envolve a formação e evolução de placas na parede das artérias e está relacionada a diversos fatores de risco.

Alimentação saudável, atividade física, controle do colesterol, pressão arterial e diabetes, abandono do tabagismo e tratamento médico adequado podem ser fundamentais para reduzir o risco cardiovascular.

Mas não existe alimento isolado capaz de realizar uma espécie de “limpeza” mecânica das artérias.

Natural não significa necessariamente seguro

Este talvez seja o ponto mais importante quando falamos sobre fitoterápicos para circulação.

Um produto pode ser natural e, ainda assim:

  • causar efeitos adversos;
  • provocar alergias;
  • aumentar o risco de sangramento;
  • interferir na ação de medicamentos;
  • apresentar contraindicações;
  • ter concentração inadequada;
  • não possuir evidências suficientes para a finalidade anunciada.

Pacientes que utilizam anticoagulantes, antiagregantes plaquetários, medicamentos para pressão, diabetes ou colesterol, entre outros, devem ter atenção especial antes de iniciar suplementos ou fitoterápicos.

Ginkgo e suplementos de alho, por exemplo, merecem cautela pela possibilidade de aumentar o risco de sangramento em determinadas situações.

Como cuidar da circulação naturalmente?

Não existe uma fórmula única, mas algumas medidas têm muito mais importância do que procurar suplementos milagrosos.

Uma estratégia consistente envolve alimentação equilibrada e rica em alimentos vegetais, atividade física regular quando não houver contraindicação, controle adequado do peso, não fumar e acompanhamento de pressão arterial, glicemia e colesterol.

A OMS destaca que parar de fumar, reduzir o sal, aumentar o consumo de frutas e vegetais e praticar atividade física regularmente são medidas associadas à redução do risco de doenças cardiovasculares.

Para quem permanece muitas horas sentado ou em pé, movimentar-se ao longo do dia também pode ser importante, especialmente quando há predisposição a problemas venosos.

Quando procurar um cirurgião vascular?

A avaliação com um angiologista ou cirurgião vascular é especialmente importante quando surgem sintomas persistentes ou sinais de doença vascular.

Entre eles estão:

  • varizes acompanhadas de dor ou inchaço;
  • sensação frequente de peso ou cansaço nas pernas;
  • edema persistente;
  • mudança na coloração da pele das pernas;
  • feridas que demoram a cicatrizar;
  • dor nas pernas durante caminhadas;
  • pés persistentemente frios associados a outros sintomas;
  • aparecimento de veias dilatadas;
  • histórico de trombose;
  • sintomas vasculares recorrentes.

Dor e inchaço de início súbito, principalmente em apenas uma perna, falta de ar repentina, dor no peito ou outros sintomas agudos exigem avaliação médica imediata, pois podem representar situações potencialmente graves.

Conclusão: alimentos naturais e fitoterápicos podem ajudar a saúde vascular?

Uma alimentação baseada em frutas, verduras, legumes, leguminosas, cereais integrais, oleaginosas e fontes adequadas de gorduras insaturadas é uma importante aliada da saúde cardiovascular e vascular.

Alimentos como azeite, peixes, frutas, vegetais, alho, aveia e castanhas podem fazer parte dessa estratégia.

O erro está em procurar um alimento específico como solução para má circulação, colesterol alto, varizes ou artérias obstruídas.

Com os fitoterápicos, a cautela deve ser ainda maior.

Alguns produtos apresentam resultados interessantes para condições específicas, como ocorre com determinados extratos padronizados de castanha-da-índia estudados na insuficiência venosa crônica. Outros, apesar da fama, possuem evidências insuficientes para várias das promessas encontradas na internet.

Além disso, produtos naturais podem interagir com medicamentos e causar efeitos adversos.

Por isso, alimentação saudável deve ser vista como parte de um conjunto de cuidados, enquanto o uso de fitoterápicos e suplementos para circulação deve ser avaliado individualmente por profissionais habilitados.

Se você apresenta varizes, inchaço nas pernas, dor, sensação de peso, alterações na pele ou suspeita de má circulação, o primeiro passo não deve ser procurar um chá ou suplemento, mas descobrir a verdadeira causa dos sintomas.

A avaliação de um especialista permite chegar ao diagnóstico correto e definir as estratégias de prevenção e tratamento mais adequadas para cada paciente.

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