Gravidez e sistema venoso: o que muda? Pode fazer escleroterapia de vasos na gestação?

A gravidez é uma fase de grandes transformações no corpo da mulher. Além das mudanças hormonais, metabólicas e emocionais, o sistema venoso também passa por adaptações importantes. Por isso, muitas gestantes percebem o surgimento ou a piora de varizes na gravidez, vasinhos nas pernas, sensação de peso, inchaço, dor nas pernas, câimbras e até varizes na região íntima.
Uma dúvida muito comum no consultório é: “posso fazer escleroterapia de vasos na gestação?” A resposta, de forma geral, é não. A escleroterapia — conhecida popularmente como “aplicação para vasinhos”, “secagem de vasinhos” ou “tratamento de vasinhos” — costuma ser adiada durante a gravidez, principalmente quando o objetivo é estético. Diretrizes internacionais citam a gestação como contraindicação ou contraindicação relativa para escleroterapia, e a segurança dos esclerosantes durante a gravidez não está bem estabelecida em estudos com gestantes.
Neste artigo, você vai entender o que muda na circulação venosa durante a gravidez, por que surgem varizes e vasinhos, quais cuidados ajudam a aliviar os sintomas e quando procurar um angiologista ou cirurgião vascular.
O que acontece com as veias durante a gravidez?
As veias têm a função de levar o sangue de volta ao coração. Nas pernas, esse retorno venoso precisa vencer a gravidade, contando com a ajuda das válvulas venosas, da contração da panturrilha e de uma boa circulação.
Durante a gestação, alguns fatores dificultam esse retorno:
1. Aumento do volume de sangue
Na gravidez, o corpo aumenta o volume de sangue para sustentar o crescimento do bebê, da placenta e do útero. Esse aumento de volume gera maior sobrecarga sobre o sistema venoso, especialmente nas pernas.
2. Ação dos hormônios
Os hormônios da gestação, como a progesterona, favorecem o relaxamento da musculatura dos vasos. Isso pode deixar as veias mais dilatadas e facilitar o aparecimento de vasinhos, veias aparentes e varizes nas pernas. O ACOG descreve que alterações hormonais e o aumento do volume sanguíneo na gravidez podem favorecer o surgimento de pequenos vasos visíveis e varizes.
3. Compressão do útero sobre as veias da pelve
Com o crescimento do útero, ocorre maior compressão sobre veias da pelve e do abdome. Isso dificulta a drenagem do sangue das pernas em direção ao coração, aumentando a sensação de pernas inchadas na gravidez, peso e cansaço.
4. Maior tendência à coagulação
A gestação é naturalmente um período de maior tendência à coagulação, um mecanismo do organismo para reduzir o risco de sangramento no parto. Porém, isso também aumenta o risco de trombose. O ACOG informa que mulheres grávidas ou no pós-parto apresentam risco cerca de quatro a cinco vezes maior de tromboembolismo em comparação com mulheres não grávidas.
Varizes e vasinhos na gravidez são comuns?
Sim. Durante a gestação, podem surgir ou piorar:
- Vasinhos nas pernas, também chamados de telangiectasias;
- Veias reticulares, aquelas veias azuladas ou esverdeadas logo abaixo da pele;
- Varizes, veias dilatadas, tortuosas e salientes;
- Varizes vulvares, na região íntima;
- Hemorroidas, que também são formas de dilatação venosa;
- Inchaço nas pernas e tornozelos;
- Sensação de peso, queimação, coceira, latejamento e cansaço nas pernas.
Essas alterações podem aparecer pela primeira vez na gravidez ou piorar em mulheres que já tinham predisposição familiar, varizes antes de engravidar, histórico de trombose, excesso de peso, sedentarismo ou trabalho com longos períodos em pé ou sentada.
Toda veia aparente na gravidez precisa de tratamento?
Nem sempre. Muitas alterações venosas da gravidez melhoram espontaneamente após o parto, quando o volume de sangue reduz, os hormônios se estabilizam e a compressão do útero deixa de existir.
Por isso, na maioria dos casos, o tratamento durante a gestação é conservador, com foco em aliviar sintomas, reduzir edema, melhorar o retorno venoso e prevenir complicações. Procedimentos como escleroterapia de vasinhos, laser transdérmico para vasos, cirurgia de varizes ou outros tratamentos invasivos costumam ser avaliados apenas depois do parto, de forma individualizada.
Pode fazer escleroterapia de vasos na gestação?
De maneira geral, não é recomendado fazer escleroterapia de vasos durante a gestação, principalmente para tratar vasinhos com finalidade estética.
A escleroterapia consiste na aplicação de uma substância esclerosante dentro do vaso para provocar seu fechamento. Embora seja um procedimento amplamente utilizado para tratar vasinhos e algumas varizes fora da gravidez, durante a gestação a avaliação muda por alguns motivos:
- Falta de estudos robustos comprovando segurança dos esclerosantes para o bebê;
- Maior tendência da gestante a alterações de coagulação;
- Possibilidade de reações locais, inflamação, manchas, dor, flebite ou eventos trombóticos;
- Alta chance de novas veias surgirem enquanto a gestação ainda está em curso;
- Possibilidade de melhora espontânea de parte das varizes e vasinhos após o parto.
Diretrizes de escleroterapia citam a gravidez entre as contraindicações, e documentos de consenso mais recentes incluem gravidez, pós-parto e amamentação como situações que exigem análise de risco-benefício, geralmente evitando procedimentos sem indicação médica essencial.
Portanto, quando a queixa é estética — “quero secar os vasinhos”, “quero tratar os vasinhos da perna”, “quero fazer aplicação de varizes na gravidez” — a orientação mais segura costuma ser: aguardar o término da gestação e reavaliar no pós-parto com o cirurgião vascular.
E se os vasinhos apareceram muito durante a gravidez?
O aparecimento de vasinhos na gravidez não significa, necessariamente, que a paciente terá um problema vascular grave. Em muitos casos, eles refletem alterações hormonais, maior volume sanguíneo, predisposição genética e sobrecarga venosa temporária.
O ideal é não tentar tratar por conta própria, não usar cremes “vasculares” sem orientação e não realizar procedimentos estéticos injetáveis durante a gestação. A avaliação com o angiologista ou cirurgião vascular ajuda a diferenciar vasinhos simples de sinais de insuficiência venosa, varizes importantes ou risco aumentado de trombose.
O que pode ser feito para aliviar varizes e inchaço na gravidez?
Durante a gestação, o foco é o controle clínico. Algumas medidas podem ajudar bastante:
1. Usar meia de compressão com orientação médica
A meia de compressão para gestante pode ajudar a reduzir sensação de peso, inchaço e desconforto nas pernas. A diretriz NICE recomenda considerar meias de compressão para alívio do inchaço associado a varizes durante a gravidez.
É importante que a meia seja indicada corretamente, com avaliação do grau de compressão, tamanho, modelo e segurança para cada paciente. Em algumas condições arteriais ou neuropáticas, a compressão pode não ser adequada sem avaliação médica.
2. Movimentar as pernas ao longo do dia
Caminhadas leves, quando liberadas pelo obstetra, ajudam a ativar a panturrilha, conhecida como “coração venoso” das pernas. A contração da panturrilha melhora o retorno do sangue e reduz a estase venosa.
Para quem trabalha sentada, uma boa estratégia é levantar em intervalos regulares. Para quem trabalha em pé, alternar apoio, caminhar alguns minutos e evitar longos períodos parada pode reduzir o desconforto.
3. Elevar as pernas
Elevar as pernas por alguns minutos ao longo do dia favorece o retorno venoso e pode aliviar o inchaço. Essa medida é especialmente útil no fim do dia, quando a retenção de líquido e a sensação de peso costumam piorar.
4. Evitar calor excessivo
Banhos muito quentes, sauna, exposição prolongada ao sol e ambientes muito quentes podem dilatar ainda mais os vasos e piorar a sensação de peso e inchaço.
5. Dormir preferencialmente de lado
Em fases mais avançadas da gravidez, deitar de lado pode reduzir a compressão do útero sobre grandes veias abdominais, melhorando o retorno venoso. A posição deve ser adaptada conforme conforto e orientação obstétrica.
6. Controlar ganho de peso e manter acompanhamento pré-natal
O ganho de peso adequado, a atividade física segura e o acompanhamento pré-natal ajudam a reduzir sobrecargas circulatórias e metabólicas. O cuidado vascular deve caminhar junto com o acompanhamento obstétrico.
Quando procurar um cirurgião vascular durante a gravidez?
A avaliação vascular é indicada quando a gestante apresenta:
- Varizes calibrosas;
- Dor intensa nas pernas;
- Inchaço importante;
- Sensação de peso que limita as atividades;
- Veias endurecidas, doloridas ou avermelhadas;
- Histórico pessoal ou familiar de trombose;
- Trombofilia conhecida;
- Varizes vulvares volumosas;
- Feridas, alterações na pele ou escurecimento nas pernas;
- Dúvida sobre uso de meia de compressão;
- Necessidade de avaliação com ultrassom Doppler venoso.
O Doppler venoso é um exame muito utilizado para estudar a circulação das pernas, avaliar refluxo venoso e investigar trombose quando há suspeita clínica. Ele não usa radiação ionizante e pode ser solicitado pelo médico quando necessário.
Sinais de alerta: quando procurar atendimento imediatamente?
Embora muitas queixas venosas sejam benignas, alguns sintomas exigem atenção rápida, pois podem indicar trombose venosa profunda ou embolia pulmonar.
Procure atendimento médico imediatamente se houver:
- Inchaço súbito em apenas uma perna;
- Dor forte na panturrilha ou coxa;
- Vermelhidão, calor local ou endurecimento de veias;
- Falta de ar repentina;
- Dor no peito;
- Tosse com sangue;
- Desmaio ou sensação de desmaio.
O CDC reforça que a gravidez aumenta o risco de coágulos sanguíneos e que a embolia pulmonar pode ser uma condição grave.
Depois do parto, quando tratar varizes e vasinhos?
Após o parto, parte das varizes e vasinhos pode regredir. Por isso, o ideal é reavaliar a circulação depois do período inicial de recuperação, considerando também a amamentação, o retorno hormonal, o peso, os sintomas e os achados do Doppler.
A decisão sobre escleroterapia após a gravidez, laser, espuma, cirurgia de varizes ou outras técnicas deve ser individualizada. Em mulheres que estão amamentando, consensos internacionais tratam a amamentação como uma situação que exige análise de risco-benefício para escleroterapia; bases como LactMed também mencionam recomendações internacionais de interrupção temporária da amamentação após escleroterapia com polidocanol, o que reforça a necessidade de decisão médica personalizada.
Em geral, para queixas puramente estéticas, costuma-se aguardar maior estabilidade do corpo após a gestação. Já sintomas importantes, varizes volumosas, complicações ou suspeita de trombose devem ser avaliados sem demora.
Perguntas frequentes sobre gravidez, varizes e vasinhos
Vasinhos na gravidez somem depois do parto?
Alguns podem clarear ou reduzir, mas nem todos desaparecem. A melhora depende de genética, número de gestações, peso, intensidade da dilatação venosa e presença de insuficiência venosa.
Varizes na gravidez são perigosas?
Na maioria das vezes, causam desconforto e impacto estético. Porém, varizes importantes podem estar associadas a dor, inchaço, inflamação e maior necessidade de acompanhamento, especialmente quando há fatores de risco para trombose.
Posso usar meia de compressão por conta própria?
O ideal é usar com orientação médica. O tipo, tamanho e compressão precisam ser adequados para evitar desconforto e garantir benefício.
Escleroterapia de vasinhos dói?
Fora da gestação, a escleroterapia costuma ser bem tolerada, mas pode causar ardor, pequenos hematomas, manchas e desconforto local. Durante a gravidez, o ponto principal não é a dor, e sim a segurança materno-fetal e a falta de indicação para procedimentos estéticos nesse período.
Posso fazer laser para vasinhos na gravidez?
Procedimentos estéticos vasculares, incluindo laser para vasinhos, geralmente são adiados na gestação. A conduta deve ser definida pelo médico, considerando indicação, risco-benefício e momento adequado.
Conclusão
A gravidez provoca mudanças importantes no sistema venoso. O aumento do volume sanguíneo, a ação hormonal, a compressão do útero e a maior tendência à coagulação explicam por que muitas mulheres desenvolvem varizes na gravidez, vasinhos nas pernas, inchaço e sensação de peso.
A escleroterapia de vasos na gestação não é recomendada de rotina, especialmente quando a finalidade é estética. O mais seguro é controlar sintomas, usar medidas conservadoras orientadas, acompanhar sinais de alerta e programar a avaliação vascular no pós-parto.
Com acompanhamento especializado, é possível cuidar da saúde vascular durante a gravidez com segurança, prevenindo complicações e planejando o melhor momento para tratar varizes e vasinhos.
Agende sua consulta e cuide da sua saúde vascular: https://agd.to/c/xsS81K