Dor pélvica persistente, sensação de peso no baixo ventre, desconforto durante ou após a relação sexual e piora da dor ao final do dia podem ter várias causas. Entre elas, existe uma condição ainda pouco lembrada: as varizes pélvicas, também conhecidas como síndrome da congestão pélvica ou insuficiência venosa pélvica.

Assim como as varizes nas pernas, as varizes pélvicas surgem quando veias da região da pelve se dilatam, ficam tortuosas e passam a apresentar dificuldade no retorno do sangue. Esse acúmulo de sangue pode gerar dor, pressão, peso pélvico e sintomas que muitas vezes são confundidos com doenças ginecológicas, urinárias, intestinais ou musculares.

A síndrome da congestão pélvica é descrita como dor pélvica crônica por mais de seis meses associada a varizes na região pélvica, perineal ou vulvar, geralmente relacionadas a refluxo ou obstrução das veias gonadais, glúteas ou periuterinas. Estudos publicados no Jornal Vascular Brasileiro apontam que essa condição pode responder por uma parcela relevante dos casos de dor pélvica crônica, embora ainda seja subdiagnosticada.

O que são varizes pélvicas?

As varizes pélvicas são veias dilatadas que se formam ao redor do útero, ovários, vagina, vulva, períneo ou outras estruturas da pelve. Elas aparecem quando há dificuldade no escoamento do sangue venoso, seja por refluxo, quando o sangue volta no sentido contrário ao esperado, seja por compressões ou obstruções em veias importantes.

Na prática, o sangue fica “represado” na pelve, aumentando a pressão dentro das veias. Com o tempo, essas veias podem se dilatar e formar trajetos varicosos, semelhantes às varizes dos membros inferiores.

O Manual MSD descreve os distúrbios venosos pélvicos como dor crônica na parte baixa do abdômen causada pelo acúmulo de sangue em veias pélvicas dilatadas e tortuosas.

Por que as varizes pélvicas causam dor crônica?

A dor ocorre porque o aumento da pressão nas veias pélvicas pode distender os vasos, irritar estruturas próximas e comprometer a drenagem venosa da região. Em muitos casos, a dor é descrita como profunda, em peso, contínua ou latejante.

A Cleveland Clinic explica que, na síndrome da congestão pélvica, o sangue pode fluir para trás nas veias pélvicas, fazendo com que elas se dilatem, fiquem cheias e tortuosas; esse acúmulo pode provocar dor pélvica crônica e outros sintomas.

Essa é uma das razões pelas quais a condição pode ser difícil de identificar. A dor pélvica crônica também pode estar relacionada a endometriose, miomas, adenomiose, doença inflamatória pélvica, cistite intersticial, síndrome do intestino irritável, alterações musculares do assoalho pélvico e outras doenças. Por isso, a avaliação precisa ser cuidadosa e, muitas vezes, multidisciplinar.

Principais sintomas das varizes pélvicas

Os sintomas podem variar de pessoa para pessoa, mas os mais comuns incluem:

  • dor pélvica há mais de seis meses;
  • sensação de peso ou pressão no baixo ventre;
  • dor que piora ao final do dia;
  • piora da dor ao ficar muito tempo em pé ou sentada;
  • melhora ao deitar;
  • dor durante ou após a relação sexual, chamada de dispareunia;
  • cólica menstrual mais intensa;
  • dor lombar ou dor irradiada para a região das pernas;
  • sensação de inchaço pélvico;
  • varizes na vulva, vagina, períneo, nádegas ou raiz das coxas;
  • associação com varizes nas pernas;
  • aumento de desconforto no período pré-menstrual.

Segundo a Cleveland Clinic, a dor da síndrome da congestão pélvica costuma durar mais de seis meses, pode piorar no fim do dia, antes ou durante o período menstrual, durante ou após a relação sexual e após longos períodos em pé, andando ou sentada.

Varizes pélvicas e dor na relação sexual

Um dos sintomas mais importantes, mas muitas vezes não relatado por vergonha ou por falta de orientação, é a dor durante ou após a relação sexual. Esse desconforto pode aparecer como dor profunda, sensação de pressão ou peso pélvico que se intensifica depois da relação.

Esse sintoma merece atenção, principalmente quando vem acompanhado de dor crônica no baixo ventre, varizes na vulva, varizes nas pernas ou piora da dor no fim do dia. A SBACV-SP cita a dispareunia entre os sintomas associados a quadros venosos abdominopélvicos tratados em contexto vascular.

Quem tem maior risco de desenvolver varizes pélvicas?

As varizes pélvicas são mais observadas em mulheres em idade reprodutiva, especialmente entre aquelas que já tiveram gestações. Isso ocorre porque a gravidez aumenta o volume de sangue circulante, altera a pressão sobre as veias pélvicas e pode favorecer dilatações venosas.

Entre os principais fatores associados estão:

  • múltiplas gestações;
  • histórico de varizes nas pernas;
  • histórico familiar de doença venosa;
  • alterações hormonais;
  • compressões venosas, como síndrome de May-Thurner ou síndrome de Nutcracker;
  • refluxo em veias ovarianas ou veias pélvicas;
  • sedentarismo;
  • longos períodos em pé ou sentada;
  • cirurgias pélvicas prévias;
  • presença de varizes vulvares, perineais ou em região íntima.

A Cleveland Clinic aponta como fatores de risco para a síndrome da congestão pélvica o maior número de gestações, histórico familiar de dor pélvica, terapia com estrogênio, varizes em membros inferiores, inflamação venosa, cirurgias pélvicas prévias e síndromes de compressão anatômica.

Varizes pélvicas podem estar ligadas às varizes nas pernas?

Sim. Em algumas pacientes, varizes pélvicas podem estar associadas a varizes nos membros inferiores, especialmente quando as varizes aparecem em locais atípicos, como região vulvar, períneo, nádegas, parte posterior ou interna das coxas.

Isso acontece porque o refluxo venoso pélvico pode se comunicar com veias das pernas, contribuindo para varizes recorrentes ou de difícil controle. O Jornal Vascular Brasileiro destaca o crescente interesse dos cirurgiões vasculares nessa condição justamente por sua associação com insuficiência venosa dos membros inferiores.

Por isso, quando uma mulher apresenta varizes nas pernas associadas a dor pélvica crônica, dor na relação sexual ou varizes vulvares, a investigação da circulação pélvica pode ser necessária.

Por que o diagnóstico costuma demorar?

O diagnóstico das varizes pélvicas pode demorar porque os sintomas se confundem com outras causas de dor pélvica crônica. Além disso, algumas mulheres podem ter veias pélvicas dilatadas sem apresentar sintomas, o que significa que encontrar varizes em um exame de imagem não confirma, sozinho, que elas sejam a causa da dor.

A Cleveland Clinic ressalta que o diagnóstico pode ser desafiador porque alterações venosas nem sempre significam que a síndrome da congestão pélvica seja a causa da dor; também é possível haver mais de uma condição contribuindo para o quadro.

Por esse motivo, a avaliação deve considerar a história clínica, o exame físico, os sintomas, o padrão da dor, a presença de varizes em regiões específicas e exames de imagem adequados.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico das varizes pélvicas pode envolver diferentes etapas:

1. Avaliação clínica detalhada

O médico investiga quando a dor começou, há quanto tempo existe, se piora no período menstrual, se piora ao ficar em pé ou sentada, se melhora ao deitar, se existe dor na relação sexual e se há varizes nas pernas, vulva ou períneo.

2. Exame físico

A avaliação pode incluir exame vascular dos membros inferiores e, quando indicado, avaliação ginecológica. O objetivo é identificar sinais de insuficiência venosa, varizes em locais atípicos e outras possíveis causas de dor.

3. Ultrassom Doppler

O ultrassom Doppler vascular é um exame importante para avaliar o fluxo sanguíneo, refluxos, dilatações venosas e sinais de insuficiência venosa. Em muitos casos, pode ser necessário estudar tanto as pernas quanto a pelve.

4. Tomografia, ressonância magnética ou angiotomografia venosa

Esses exames podem ser solicitados para avaliar melhor as veias pélvicas, identificar compressões venosas e estudar a anatomia vascular.

5. Flebografia ou venografia

Em casos selecionados, a venografia pode ser usada para confirmar refluxos, obstruções e planejar o tratamento endovascular.

O Manual MSD cita ultrassom, venografia, tomografia computadorizada e ressonância magnética como exames que podem auxiliar na confirmação dos distúrbios venosos pélvicos.

Tratamento das varizes pélvicas

O tratamento depende da intensidade dos sintomas, da causa do problema, da presença de refluxo ou obstrução venosa e da existência de outras doenças associadas.

As opções podem incluir:

Mudanças de hábitos

Atividade física regular, controle de peso, evitar longos períodos em pé ou sentada e cuidados com a saúde venosa podem ajudar no controle dos sintomas, embora nem sempre resolvam o problema quando há refluxo importante ou compressão venosa.

Tratamento medicamentoso

Em alguns casos, medicamentos podem ser utilizados para controle da dor ou melhora dos sintomas, sempre com orientação médica.

Embolização de varizes pélvicas

A embolização de varizes pélvicas é um procedimento minimamente invasivo realizado por via endovascular. Por meio de um cateter, o médico acessa as veias alteradas e bloqueia o fluxo anormal, geralmente com molas, agentes esclerosantes ou outros materiais específicos.

O objetivo é interromper o refluxo e reduzir a pressão nas veias pélvicas, aliviando a dor e os sintomas associados. O Jornal Vascular Brasileiro revisa a embolização como uma das opções terapêuticas para a síndrome da congestão pélvica.

Angioplastia com stent

Quando existe uma compressão venosa importante, como em algumas formas de síndrome de May-Thurner ou síndrome de Nutcracker, pode ser necessário tratar a obstrução com angioplastia e colocação de stent, conforme o caso.

A SBACV-SP descreve que compressões e obstruções venosas abdominopélvicas podem estar relacionadas à dor pélvica crônica, varizes pélvicas e varizes em membros inferiores, e que procedimentos como embolização ou implante de stent podem ser utilizados em situações selecionadas.

Varizes pélvicas têm cura?

O controle dos sintomas costuma ser possível, especialmente quando o diagnóstico é correto e o tratamento é direcionado à causa. Muitas pacientes apresentam melhora significativa da dor após tratamento adequado, mas cada caso precisa ser avaliado individualmente.

É importante lembrar que dor pélvica crônica pode ter múltiplas causas ao mesmo tempo. Por isso, mesmo quando há varizes pélvicas, pode ser necessário acompanhamento conjunto com ginecologista, urologista, coloproctologista, fisioterapeuta pélvico ou especialista em dor.

Quando procurar um angiologista ou cirurgião vascular?

Procure avaliação com um especialista em circulação se você apresenta:

  • dor pélvica por mais de seis meses;
  • dor que piora ao ficar em pé ou sentada por muito tempo;
  • sensação de peso no baixo ventre;
  • dor durante ou após a relação sexual;
  • varizes na vulva, períneo, nádegas ou raiz das coxas;
  • varizes nas pernas associadas a dor pélvica;
  • varizes que voltam após tratamento;
  • histórico de trombose ou doença venosa;
  • exames ginecológicos sem causa definida para a dor.

O angiologista e cirurgião vascular pode investigar se existe refluxo venoso, compressão de veias pélvicas ou insuficiência venosa associada, orientando o melhor tratamento.

Conclusão

As varizes pélvicas são uma causa pouco conhecida, mas importante, de dor pélvica crônica. Elas podem provocar peso no baixo ventre, dor ao final do dia, piora ao ficar muito tempo em pé ou sentada, dor durante ou após a relação sexual e associação com varizes na vulva, períneo ou pernas.

Como os sintomas podem se confundir com outras doenças, o diagnóstico exige uma avaliação cuidadosa. Quando identificadas corretamente, as varizes pélvicas podem ser tratadas com estratégias clínicas ou procedimentos minimamente invasivos, como a embolização de varizes pélvicas e, em casos selecionados, tratamento de compressões venosas.

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